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OPINIÃO

Depressão, depressões, tristeza e tristezas

OPINIÃO | PAOLA MARQUES DEL NERO

OPINIÃO | PAOLA MARQUES DEL NERO Paola Marques Del Nero é psicóloga, formada na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e em formação psicanalítica. É psicóloga efetiva no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS I) em Canarana e na Ser Clínica Integrada. Instagram: @p.delnero

14/10/2020 13h15
Por: Paola Marques Del Nero
Imagem Ilustrativa
Imagem Ilustrativa

Existe e persiste no imaginário social uma visão bem marcada da depressão que a caracteriza como uma condição de isolamento, energia baixa, choro, escuridão e, principalmente, individual e solitária. Compreender os episódios depressivos sob essas crenças é um problema (e social), pois reduz e simplifica diversas questões que atravessam a depressão, a qual engloba variados motivos estruturais que geram tal adoecimento.

Tristeza recorrente durante um longo período, sensação de vazio, desinteresse, falta de energia, culpa, cansaço recorrente, desejo de não viver mais, diminuição ou aumento do apetite: é assim que os manuais diagnósticos apontam como uma síndrome depressiva. Porém, é importante compreender que essas “manifestações universais”, são maneiras de comunicação entre os profissionais da saúde. Notoriamente são válidas. Porém, a singularidade deve ser escutada e percebida com muito reparo. Ou seja, é a história de vida de cada sujeito que vai mediar o desenvolvimento desses sintomas.

Dito isso, invoca-se o desafio de diferenciar uma resposta natural (de tristeza por exemplo) a um problema da vida, de uma depressão. Tenho notado (o que não é novidade), uma medicalização dos fenômenos naturais da vida, o desejo desesperador de sessar o sofrimento, à qualquer custo, e rápido. É preciso entender o que está acontecendo, escutar, nas entrelinhas, e isso vai na contramão da medicalização e da patologização de eventos que fazem parte de nossa história. E, além disso, tenho visto muitos profissionais não respeitarem o tempo da escuta e investigação de cada história, e medicalizarem o que não é medicalizado- a angústia e a falta- que devem ser entendidas e ressignificadas. O que é diferente do transtorno, que vem atrelado à ideia de tratamento e da medicalização.

A depressão, é uma ausência de desejo e de prazer muito intensa e prolongada. O que é distinto da tristeza como resposta à eventos intrínsecos ao existir. Além disso, a depressão se configura em saídas às vezes desconhecidas de manifestação como a ironia, irritabilidade e falta de paciência, e que variam por idade, gênero, classe e raça.

De maneira resumida e para citar alguns poucos exemplos, os sintomas depressivos em crianças são observados principalmente em relação à agressividade e manifestados nas brincadeiras e nos desenhos (devido à isso, o vínculo dos cuidadores com a escola é muito importante). Na velhice, é comum “acertar contas consigo mesmo”, o arrependimento...assim, sintomas depressivos podem ser desenvolvidos ou aguçados nessa fase. Segundo pesquisas, homens sofrem mais de depressão do que mulheres, pois não cuidam, não falam, não externalizam, já que, a postura resiliente, viril e calada, é popularmente mais cobrada dos homens. Já mulheres negras sofrem mais de depressão em comparação à mulheres brancas. Além disso, a condição social afeta intimamente no desenvolvimento de sintomas depressivos. Citei alguns exemplos, mas que merecem serem destrinchados em outros momentos.

E, existe prevenção para a depressão? Acredito que o apoio social é a mais eficaz prevenção, uma vez que o impacto é para o resto da vida. Com amparo dosado no momento inicial da vida, nos sentimos apoiados. O “colo” é extremamente importante, para desenvolver a ideia de que a vida é possível, de que há apoio. Precisamos dialogar a partir do afeto. Entretanto, as realidades são díspares e a vida não é um conto de fadas. Muitas famílias e cuidadores não puderam oferecer o cuidado “idealizado”, ou outras possibilidades do que foi imposto, por fatores sociais e/ou psicológicos.

Se não posso mudar o que foi escrito de minha história, como posso me tornar sujeito autor de minha própria história e pensar a partir de agora? Muitas respostas podem ser atribuídas a partir de questionamentos desse feitio. Mas é importante pensar que movimentos de ressignificação da história, aceitação, perdão e autoconhecimento são acessíveis e possíveis (principalmente a partir da escuta profissional). Ou seja, quem vai dizer o que é mais funcional, é a própria pessoa, a partir de sua própria experiência- e isso é muito diferente dessa “era coach” e simplista com a qual nos deparamos. Não é simples, não é fácil e não existe manual para autoconhecimento. Porém, é possível com muita escuta e ética!

Por fim, relembro que ter saúde não é viver sempre bem, é também vivenciar dificuldades. A diferença é como são vivenciadas, apoiadas e compreendidas...

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