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OPINIÃO

Suicídio: reparo e movimento

OPINIÃO | PAOLA MARQUES DEL NERO

OPINIÃO | PAOLA MARQUES DEL NERO Paola Marques Del Nero é psicóloga, formada na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e em formação psicanalítica. É psicóloga efetiva no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS I) em Canarana e na Ser Clínica Integrada. Instagram: @p.delnero

18/09/2020 13h41
Por: Paola Marques Del Nero
Imagem Ilustrativa
Imagem Ilustrativa

Evitar falar sobre o suicídio é evitar falar de angústia e não dar espaço para inquietudes dessa ordem. Colocar em pauta a campanha do Setembro Amarelo me convoca à analisar o enigma do tema do suicídio sob inúmeras lentes que vão além do social, pessoal, cultural e momentâneo. São diversas nuances as quais não são passíveis de compreensão a fim de que se explique tal fenômeno. Em vista disso e, perante rastros de impotência, a façanha passa a se sustentar então no que é possível de se fazer e criar perante demandas de tamanho escrúpulo.

Dito isso e, pensando-se inclusive na história que culminou na iniciativa da campanha- em 1974, nos Estados Unidos, Mike Enne, um jovem de 17 anos pôs fim à sua própria vida e, seus pais e amigos relataram não terem percebido os sinais- acredito que um ponto importante à se destrinchar, é a respeito destes tão instigantes sinais.

Muito se comenta à respeito do que se deve esperar como alerta de que algo não está sadio: frases que demonstrem baixa autoestima, isolamento e silêncio excessivo, ânimo e desejo reduzidos, falta de esperança e perspectiva, e tantos outros. E, é de considerável importância citar e disseminar estas ditas repetições comuns que podem se configurar como um “comportamento suicida” e culminar no ato. Porém, as generalizações por vezes se mostram sedutoras e tamponam a essência da problemática em questão.

Pontuo então, quão valioso é reparar no que se manifesta no particular de cada um. O que costumava ser e estar de um certo modo e depois se vê às avessas- mudanças no discurso, nos prazeres e afazeres. É preciso notar os detalhes, e o que se mostra diferente. Avaliar o insólito, estranho e desconhecido, para que assim se possa pensar no “caso a caso”.

E, quando sinalizo à prestar atenção no particular de cada um, me refiro também à olharmos para o nosso individual e restrito. Questionar nossa disponibilidade e intenção ao nos propormos à escutar o indizível e insuportável do outro. O ato de escutar não carece de ser mais insustentável do que o conteúdo do que está sendo dito. E, caso seja, não se configura como incapacidade, contanto que isso seja reconhecido e se proponha outra alternativa à situação: que outro escute, profissional ou não. O fundamental nessa conjuntura é escutar com disponibilidade, interesse e empatia (até onde isso for possível de ser alcançado).

Além da atenção às individualidades e questionar se há preparo e interesse em escutar (pois só assim se escuta, de fato), ressalto o óbvio, que não deve ser esquecido, porém, frequentemente se perde. Dor, sofrimento e a potência que se atribui às dificuldades, são condições deveras subjetivas e, nesse sentido, não há espaço para críticas e julgamentos. Pesando-se em realidades díspares, existem lacunas suficientes a fim de que sejam preenchidas pelas mais variadas maneiras de sentir, olhar e viver. O respeito é o que deve aflorar.

Por fim, lembremos que abranger um transtorno mental ou fazer uso abusivo de álcool e outras drogas não são condições determinantes para o comportamento suicida. Atualmente, existem serviços gratuitos no município como o Centro de Atenção Psicossocial- CAPS I, o Centro de Reabilitação- CRIDAC, as Unidades Básicas de Saúde, Hospital Municipal, e, o Centro de Valorização da Vida- CVV (disque 188 e será disponibilizado atendimentos emocionais com equipe qualificada.

Seguimos atentos, cuidadosos e com escuta atenciosa. O suicídio não é uma decisão individual.  

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