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OPINIÃO

Sobre 2020: a angústia em não saber, mas permitir sentir e reinventar

OPINIÃO | PAOLA MARQUES DEL NERO

OPINIÃO | PAOLA MARQUES DEL NERO Paola Marques Del Nero é psicóloga, formada na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e em formação psicanalítica. É psicóloga efetiva no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS I) em Canarana e na Ser Clínica Integrada. Instagram: @p.delnero

28/09/2020 14h58
Por: Paola Marques Del Nero
Imagem Ilustrativa
Imagem Ilustrativa

A linguagem nos entrega e tampouco dá conta. Ao longo dos últimos meses, tenho me sustentado em uma repetição de tentativas de elaborar através da escrita, o que insiste no ato. Frequentemente dissemino que não há necessidade de nada da ordem do complexo e bem reconhecido para criar e, consequentemente, elaborar (por exemplo, não é preciso ser reconhecido como “escritor”, para escrever e criar).

Em outras palavras, dessa sucinta introdução, digo que tenho reparado em mim e em tantas outras pessoas (conhecidas por mim ou não), uma cobrança em compreender esse ano, produzir além do habitual, para que a angústia do estranhamento com 2020 seja ao menos tamponada ou elaborada. Mas me parece que tantas informações e desejos, estagna ao invés de movimentar.  É um intenso “vir à ser”, e esse pode ser exatamente um possível objetivo em viver, já que é esse processo frustrante que muitas vezes nos movimenta. A ansiedade perante tudo isso nem sempre precisa ser decifrada como aversão e desespero, dado que é dessa mesma ansiedade que é concebível a criação de algo.

Enfim, todo esse compilado prolixo para dizer que ainda me parece um tanto árduo tecer, traçar e ou rabiscar sobre esse ano. Pensar está custoso e fatigante. É um tanto de tanta coisa, um insistente “não sei” e/ou “é estranho isso”.

Nessa era da glamourização da saúde mental, aceitar as desavenças sobre nós mesmos é vestido como coragem e masoquismo. O que diriam então para quem compreende saúde mental como um persistente percurso de ressignificação? Uma pertinente tentativa, e, não um “estado de ser”? Não vivenciar isso é encenar uma falsa verdade? Não sei. Mas essa encenação pode ser modus operandi para muitos (aqueles ditos de que a vida é a estrada e não o final desta).

Reparar o que é individual é então, uma possibilidade quase que descomunal. Digo que, assumir o próprio desejo é subversivo e, muito provavelmente se configura como um sentido potente para a liberdade. Renunciar é o castigo, às vezes letal. Uma análise bem manejada pode ser uma saída, mas, muitas vezes aristocrata e pouco acessível. E não digo inacessível por questões de valores e tempo, mas de subjetividade, estrutura psíquica mesmo.

Tenho notado que a consequente sucessão de “sentires” não traduzíveis estão sendo eventualmente correspondidos pela sensação de pertencimento gerada por incontáveis feitios. Quando evocamos tentativas de nomear as lamentações pela intervenção das trocas e compartilhamentos- mesmo que distantes- faz-se possível o pertencer- “não é só comigo então”.

Posso apontar como algo inquietante, essa sensação de não saber o que se sente, e concordo com a citação que li esses dias em um texto do Freud de 1919, quando ele afirma que é fundamental “primeiro transportar-se para esse sentimento, e evocar dentro de si a possibilidade dele”. Isso não torna a tarefa de decifração mais fácil, na realidade me parece árduo lidar com o que nos inquieta. Quero dizer que, só é inquietante porque algo foi acrescentado ao novo para assim designá-lo. Ou seja, o sentimento inquietante gerado pelo “além do novo” é estranho, mas, penso que seria mais estranho se não inquietasse- e, acrescento que o mais interessante é que frequentemente transportamos essa inquietação para arte, para a ficção, onde encontramos muitas coisas, que não inquietantes, mas o seria se ocorresse na vida real. A diferença é que, na arte o inquietante fascina, e na vida real angustia.

Pensar, questionar, duvidar e sustentar um não saber cansa e esgota. Mas já disseram que psiquismo sem movimento é o fim da vida, e, mais do que isso, quem não porta cansaço nesses dias, vejo que beira uma “morte dentro”, um mergulho na negação. Isso pode ecoar com tom de revolta, mas também decifro como espanto (não admirável) em como driblar tanta lamúria.

O lado bom desse ano, o lado bom da pandemia? Respostas ditas positivas à esses questionamentos só reforça como estamos enraizados em uma concepção dual e limitada. O mais cabível e responsável seria esbarrar com possibilidades nesse cenário e, entendermos o quão particular isso deve ser, para que desejo algum seja renunciado (e querer não é desejar). Não necessariamente algo bom, mas algo possível, uma alternativa, uma reação (à esse estranho ano).

Em suma, acredito não ser o tempo de compreender este ano, e tudo que dele se destrinchou (até porque ainda é 2020). É importante encontrarmos meios de ressignificar esse tanto (de 2020). Encontro como estratégia, insistir na linguagem grafada e escrita, no “compartilhar” como possibilidade de reinvenção. Não como um esforço de tamponar alguma falta, mas em assumi-la(s). É uma aposta.

Apostemos, cada um à sua maneira.

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